Além da imagem do Brasil: Lia Rodrigues e o corpo como território

Descrição do posCom a chegada da Lia Rodrigues Companhia de Danças à Finlândia, apresentando o espetáculo Borda, a artista brasileira de dança Carolina Paulino reflete sobre as muitas histórias que o corpo brasileiro carrega e sobre como a coreografia pode questionar fronteiras, pertencimento e quem tem acesso à arte.

Carolina Paulino

11/3/20263 min read

Com a chegada da Lia Rodrigues Companhia de Danças à Finlândia, apresentando o espetáculo Borda, a artista brasileira de dança Carolina Paulino reflete sobre as muitas histórias que o corpo brasileiro carrega e sobre como a coreografia pode questionar fronteiras, pertencimento e quem tem acesso à arte.

Como artista brasileira de dança que vive e trabalha na Europa, frequentemente reflito sobre como o Brasil é visto de fora. Samba, Carnaval, futebol e um extraordinário senso de ritmo e celebração são imagens familiares. São partes significativas da nossa cultura, enraizadas em histórias ricas, especialmente afro-brasileiras. Mas não representam toda a nossa realidade.

O Brasil é um país de muitas vozes, moldado pelos saberes indígenas, pela herança da diáspora africana, pela colonização europeia, pelas migrações e por profundas desigualdades sociais.

Nossas expressões artísticas carregam essas histórias, às vezes de maneira visível, outras vezes na forma como nos movimentamos, nos reunimos, celebramos e resistimos. O corpo guarda memórias que as palavras nem sempre conseguem expressar.

Essa é uma das maneiras de compreender o trabalho de Lia Rodrigues, cuja companhia, fundada no Rio de Janeiro em 1990, tornou-se uma importante referência na dança contemporânea internacional.

Seu trabalho não procura representar uma imagem única e facilmente reconhecível do Brasil. Em vez disso, questiona o que os corpos podem revelar sobre vulnerabilidade, imaginação, poder e convivência.

Desde 2004, a companhia desenvolve suas atividades na Maré, um grande complexo de favelas do Rio de Janeiro, em parceria com a Redes da Maré. Essa relação de longo prazo contribuiu para a criação do Centro de Artes da Maré e da Escola Livre de Dança da Maré.

Não importa apenas onde a dança é criada, mas também quem pode participar de sua criação e vivenciá-la. Em uma sociedade na qual as oportunidades culturais são distribuídas de maneira desigual, esse compromisso é tanto artístico quanto social.

A Maré não deve ser reduzida a um símbolo de dificuldades, nem tratada simplesmente como cenário. É um território de conhecimento, criatividade e vida cotidiana, parte de uma troca contínua entre a companhia e a comunidade ao seu redor.

A prática artística de Rodrigues nos convida a repensar a distância que muitas vezes se estabelece entre a arte contemporânea e as comunidades nas quais ela está inserida.

Em Borda, o título em português evoca tanto a ideia de limite ou fronteira quanto o ato de bordar. As fronteiras podem separar, classificar e excluir; os fios, por sua vez, podem ser unidos, soltos e entrelaçados em novas formas.

No palco, nove artistas trabalham com movimentos e materiais para criar imagens em constante transformação, explorando conexões e diferenças. Em vez de apresentar uma narrativa linear, o espetáculo convida o público a sentir essas questões por meio dos corpos em movimento.

O que isso pode significar na Finlândia?

As histórias do Brasil e da Finlândia são muito diferentes, e suas desigualdades não devem ser equiparadas. Ainda assim, questões relacionadas ao acesso à cultura, à migração, ao pertencimento e a quais vozes são ouvidas também encontram eco na sociedade finlandesa.

O trabalho de Rodrigues abre espaço para refletir sobre essas questões sem presumir que uma experiência possa representar a outra.

Ao público finlandês, eu sugeriria olhar além da expectativa de encontrar uma linguagem de dança facilmente identificável como “brasileira”.

Observem, em vez disso, as relações entre os artistas, os materiais que eles transformam e os momentos em que um corpo individual passa a fazer parte de uma imagem coletiva.

A experiência pode ser inquietante, lúdica ou delicada — às vezes, tudo isso ao mesmo tempo.

Como artista brasileira, valorizo a possibilidade desse encontro. A dança permite que as culturas dialoguem entre si sem que precisem se tornar idênticas.

Lia Rodrigues não nos diz o que é o Brasil. Ela nos convida a imaginar o que podemos construir juntos, para além das fronteiras que moldam nossas vidas.

Autora:

Carolina Paulino
Artista brasileira de dança, coreógrafa e diretora de movimento


A chegada da Companhia de Danças à Finlândia

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